A Casa dos 60, 70, 80… e mais

Uma casa nova, algumas mudanças nos móveis e muita vida pela frente.

Outro dia me peguei pensando que a vida deve ter algum tipo de imobiliária escondida.

A gente nasce numa casa, cresce em outra, muda de endereço algumas vezes e, quando percebe, alguém aparece com a chave na mão e avisa:

— Chegou a hora de você se mudar para a casa dos 60.

Como assim?

Eu nem estava procurando casa!

Mas parece que é assim mesmo. A vida não pergunta se a gente está preparada para a mudança. Simplesmente entrega a chave.

E lá vamos nós, com nossas malas, nossas histórias e uma quantidade impressionante de coisas que carregamos sem saber muito bem por quê.

Na mudança, descobrimos que algumas coisas precisam ficar na casa antiga.

Medos que já venceram.

Culpa que não serve mais.

Aquela necessidade de agradar todo mundo.

Relacionamentos que perderam o sentido.

E, principalmente, aquela velha ideia de que existe uma idade certa para fazer alguma coisa.

Na casa dos 60, a gente começa a perceber que não precisa levar tudo para dentro.

Podemos escolher.

Aliás, acho que essa é uma das melhores coisas dessa casa.

A gente escolhe melhor.

Escolhe com quem quer sentar à mesa.

Escolhe onde quer gastar nosso tempo.

Escolhe as conversas que valem a pena.

Escolhe dizer não sem precisar escrever uma justificativa de três páginas.

E também começa a olhar para alguns cômodos que estavam esquecidos.

Um sonho que ficou guardado.

Uma vontade antiga.

Um projeto que foi adiado.

Uma viagem.

Um curso.

Um livro.

Um negócio.

Uma amizade.

Ou simplesmente a vontade de acordar numa manhã qualquer e pensar:

“Hoje eu vou fazer alguma coisa só porque eu quero.”

E sabe o que descobri?

A casa dos 60 não é uma casa de repouso.

Muito pelo contrário.

Tem janela para abrir, parede para pintar, móvel para mudar de lugar e, dependendo da disposição, até uma reforma daquelas!

Também tem algumas marcas nas paredes.

São as histórias que vivemos.

Tem fotografias que nos fazem sorrir.

Tem outras que ainda doem.

Tem portas que precisamos fechar.

E tem portas que talvez nunca tivéssemos coragem de abrir antes.

Mas agora temos a chave.

E talvez seja justamente isso que a maturidade nos ensina:

a casa é nossa.

Não precisamos morar nela do jeito que alguém determinou.

Podemos reorganizar.

Podemos jogar fora o que pesa.

Podemos trazer coisas novas.

Podemos receber gente.

Podemos ficar quietas quando quisermos.

Podemos rir alto.

Podemos recomeçar.

E, principalmente, podemos descobrir que ainda existem cômodos dentro de nós que nunca conhecemos.

Talvez seja por isso que eu não goste muito da ideia de simplesmente “chegar aos 60”.

Prefiro pensar que entrei na casa dos 60.

Depois virão os 70.

Os 80.

E, se Deus permitir, muitos outros endereços.

Porque o número muda na porta, mas a casa continua sendo nossa.

Então, se você também recebeu essa chave, entre.

Abra as janelas.

Deixe o sol entrar.

Dê uma boa olhada ao redor.

Mude os móveis de lugar.

Jogue fora o que já não combina com você.

E comece a decorar do seu jeito.

Porque, afinal…

ainda temos muita vida para morar.

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