Um dia, conheci alguém a quem chamei de “meu amor da terceira idade”.
Eu estava tão empolgada e apaixonada que acreditei que, naquela altura da vida — eu com 60 anos e ele com 64, mais ou menos —, aquele seria o meu amor até que a morte nos separasse.
Ele parecia o homem dos meus sonhos: gentil, carinhoso, cavalheiro e companheiro. Gostava de passear, fizemos trilhas, viajamos… Enfim, era só amor. Só love, só love!
Até que decidimos ficar juntos para sempre. Passei por cima de todas as minhas incertezas e mergulhei de olhos fechados naquele mar de amor.
Eu vivia cantando: “De repente, fico rindo à toa, sem saber por quê…”
Mas, cerca de seis meses depois, as coisas começaram a mudar.

Aquela conversa de que “o importante é fazer você feliz” desapareceu. De repente, tive a impressão de que ele passou a me achar horrorosa. Eu, por minha vez, passei a não suportá-lo. Toda aquela química acabou.
A separação foi dolorosa, triste e cheia de situações desagradáveis. Chorei muito e por bastante tempo. Ele não demorou a voltar para uma ex-namorada e começou a desfilar com ela pelo meu bairro, para todo mundo ver.
Foi um desastre completo!
Depois que a dor passou e o amor acabou, decidi cuidar do meu jardim — por dentro e por fora. Comecei a cuidar mais de mim. Veio meu neto, que encheu minha vida de alegria, e também me aproximei ainda mais da minha neta de 7 anos, que é linda. Aos poucos, tudo mudou.
Hoje, quando alguém se aproxima, não me entrego com a mesma facilidade. Tornei-me mais cuidadosa porque, convenhamos, chorar por amor na terceira idade é meio esquisito. A dor é igual àquela da adolescência, mas agora temos boletos, pressão alta e dores nas costas! Brincadeiras à parte, o coração não consulta nossa idade antes de se apaixonar — nem antes de sofrer.
Por isso, passei a avaliar melhor as circunstâncias.
Se essa pessoa adoecer e ficar presa a uma cama, estarei disposta a cuidar dela? E, se for eu quem adoecer, será que ela ficará ao meu lado?
O que ela ganha é suficiente, pelo menos, para sustentar a própria vida? Ela realmente gosta de passear, conversar, sorrir, assistir a um bom filme e ir à praia? Ou vai querer me controlar o tempo todo, decidir com quem posso conversar e até escolher de quem posso ser amiga?
Aprendi a viver sozinha. Nem sempre é fácil. Às vezes, um cano quebra, a luz entra em curto-circuito ou a internet cai, e tudo sobra para mim resolver.
Mas eu lhe pergunto: e se você encontrar alguém que se faça de morto diante dos problemas e continue deixando tudo sobre os seus ombros?
Quando você quiser sair com uma amiga, poderá deixar o cidadão em casa sozinho? Ou, quando voltar, encontrará um homem emburrado e mal-humorado?
E quando quiser passar a noite assistindo a um filme ou maratonando uma série? Ele vai implicar?
E se você dormir mal e quiser descansar durante a manhã?
Sozinha, você pode. Com um companheiro, talvez não.
São muitas as questões que precisam ser ponderadas. Então, eu me pergunto: quero mesmo recomeçar justamente agora, quando ficar sozinha deixou de ser um problema e se tornou um prazer?
Não sofro com a solidão. Vivo uma solitude maravilhosa.
Sou cheia de manias, é verdade — mas são as minhas manias. Gosto da minha liberdade, do meu tempo e da vida que construí.
Não estou fechada para o amor. Continuo sendo mulher. Continuo sentindo. Ainda acredito que amar pode ser bonito em qualquer idade.
A diferença é que, agora, estou mais cuidadosa. Não quero alguém apenas para preencher um lugar vazio, porque esse vazio já não existe. Quero uma companhia que acrescente, que respeite minha liberdade e que torne a caminhada mais leve.
Até posso cuidar de alguém que adoeça antes de mim.
Mas esse alguém terá que merecer os meus cuidados.